SVQO

Corpos celestes incandescem acima. Qualquer conexão traçada é do arbítrio do observador, ignorante das suas coordenadas. Eu estou aqui, ele está lá. Juntos em uma linha imaginária, sujeitos à exaustão da manutenção da entropia enxertada. É uma noite cansada, e do topo da cabeça e do fundo da pelve me atravessa estômago e coração, se chocando em um espasmo do diafragma no centro, um gozo silencioso que retorce os pulmões em uma música terrível que só consegue gritar de si. Inaudível, pesado, escuro, supermassivo no véu de vácuo que me abraça. Topografia. O relevo que resulta da base rochosa do corpo: os ossos ígneos e a pele que emerge sobre terra, carne, virgem. Acordo em minha pangéia particular, mas regatos de mágoa implacável trincham fendas, fiordes, falhas, cânions, voçorocas intransponíveis de maravilhosa depravação eterna que atraem o olho melancólico, fixo e viciado. Dormi por tempo demais, me atrasei para a manhã e só me resta agora presenciar o crepúsculo dos sorrisos: subindo sublimados, efêmeros, ralos, inconstantes, de passagem, abstraídos ao terreno impermeável, sempre passado e esquecidos ao corpo. Fixo e viciado. Então que se vá. Sísmico, espasmódico, esguichando através de cada recanto adormecido, surtando cataclismos, refazendo, reabastecendo, planisfero-me novo. Espiralando acima, invisível na manhã, saturno vaga lentamente os primeiros passos do meu segundo ciclo. Estou sentado, nu e só, perante uma janela aberta. De tanta verborragia e argumentos esgotados me escapa uma palavra que seja melhor do que “amor”. Intimidade absoluta resulta na necessidade de honestidade brutal que pressiona todos os poros do meu corpo que, da memória muscular de uma vida inteira, tentam se fechar em vão. Mas surpreendentemente, sem contragosto algum da minha parte, a primavera amanhece inexorável por detrás do muro concreto. Arremedo um aforismo: Essa conexão é a realização última do potencial plástico do cérebro. A cerca elétrica caiu com as últimas chuvas e o aviso amarelo e preto de perigo balança patético me incitando a não resistir à entrada da luz. Por trás das pálpebras cerradas, suplentes do muro, enxergo apenas potencial em luzes anstratas” SVQO