Daniela Vigo
Oratório-altar à Pachamama

“Oratório-altar dedicado à Pachamama, deidade andina que representa a Mãe Terra. Presente em muitas culturas, também é chamada de Gaia, Mulher Aranha, entre outros nomes.
A memória ancestral despertada a partir do gesto repetitivo, no tatear com as pontas dos dedos entre fios e argila no processo artístico ritualístico.
A primeira Deusa é a Senhora das Águas, Iara. A sereia apresenta duas caudas que se encontram com os seus braços.
A segunda deidade foi feita a partir do barro retirado de um terreno baldio. Os traços menos arcaicos que a primeira deidade, a face africana, lábios grossos, nariz largo, o turbante na cabeça descansando sobre os ombros e o corpo disforme saindo do barro.
A terceira Pachamama chamei de Mulher Tartaruga. Os cascos saem de sua cabeça e percorrem suas costas. A Deusa Tartaruga em tupi-guarani chamava-se Jururá-açu, deidade com livre acesso ao submundo, ao interior da Terra.”
Daniela Vigo, julho de 2021.
Ficha técnica:
Oratório-Altar à Pachamama
Galhos de parreira, fios de poliéster, artefatos em cerâmica e em argila, a lata, que foi o suporte para a queima artesanal, carvão, serragem, plantas, flores secas que caem das árvores.
Arte povera. escultura e desenho instalado. Dimensões: 192x89m
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Criar a partir de algo que iria ser descartável propondo sua reutilização por questões que envolvem a consciência sobre o descarte no planeta. Os galhos de uma poda aproveitados para conceber o Conselho das Anciãs das 13 Luas, necessidade de ouvir a Terra, de estar em comunhão com os sentimentos mais profundos que ela desperta. A videira entra em estado de dormência com o inverno, cortar seus galhos é necessário para o seu renascimento.
A lenda é uma tradição oral passada entre mulheres nativas de tribos nativas norte-americanas. São 13 anciãs regentes das lunações que atuam como portais de conhecimento do Sagrado Feminino e, quando integradas, formam o corpo da Mãe Terra, o casco de tartaruga. A tartaruga é a grande guardiã do tempo e nos lembra para nos mantermos enraizados na Terra e reaprender a ouvi-la.
A grande Tecelã do Universo alinha os 13 círculos entrelaçados da videira para recriar esse espaço sagrado. A linha sai de seu ventre, cria caminhos na vida, conecta, entrelaça e segue fluida.
Ao centro do Conselho das Anciãs, a filha da Terra, Maria de Madalena. O seu ventre é o próprio vaso de alabastro. Ela ungiu Yeshua e o tornou messias, previu sua morte e foi testemunha de seu renascimento.
Sua presença no centro da Casa me faz refletir sobre a falta do feminino em nossa cultura e o impacto desastroso que isso traz ao planeta. Vivemos em um mundo onde onde o princípio masculino foi priorizado e manifestado de forma dominante, criando uma sociedade amparada na ganância, superexploração e destruição da natureza.
Em frente a escultura de Maria de Madalena, o amuleto chamado Nó de Ísis ou Tyet, representa a natureza binária feminina de vida e morte que se dá pelo ciclo menstrual, simboliza a ressurreição e também assegura como primordial a harmonia entre os aspectos feminino e masculino para resguardar a Terra e os seres vivos.
Ao lado direito de Maria de Madalena, a DeusaTerra-Árvore-Serpente, sua presença conduz ao ventre do mundo, ao Reino Sagrado, para que a nossa força interior seja restaurada e a Terra seja curada.
Agradecimentos a Marcelo Chardosim, artista, ativista social e cultural e organizador Exposição do Museu Baldio, pelo registro em vídeo.
Edição: Daniela Vigo
Porto Alegre, 31 de agosto de 2021.